#Retalhos: Faz de conta

Quando a vitrola quebrar e a música acabar os dias não serão iguais.
Quando o grave do radinho deixar de tocar a escuridão se tornará um breu.
Quando seus olhos olhar para outros olhos em um lance rotineiro na quarta-feira de carnaval, tudo o que existe passará a deixar de existir.
Os dias serão mais cinzas, as noites menos claras sem as estrelas do céu, e a vida menos agradável.
Quando os caminhos que percorremos juntos tomar rotas diferentes, tudo o que ficará são as marcas que este encontro nos deixou.
Uma vez quando menino tinha manias de brincar de faz de conta, por ser vidrado em animais fui quase a selva toda. Já fui leão por sua soberania e majestade, e também zebra por seu casaco de listras cafona e lindo ao mesmo tempo.
Em minha curiosidade afoita de criança questione ao meu avô que animal ele seria, sua resposta foi breve:
– Lesma!
Espantei-me, fiquei boquiaberto e perguntei mais uma vez
– De todos os animais do mundo, qual o senhor seria?
– Uma lesma!
Indignado fechei a cara, e questionei o motivo dele ter escolhido um animal tão nojento e sem graça. Em sua calma e atenção, meu avô pegou um graveto e começou a trilhar uma reta no chão de terra:
– A lesma tem muita coisa em comum comigo. Quando caminhamos deixamos um rastro para trás. Nossos passos são sempre para frente, mais basta olhar sob nossos ombros e ver todo o caminho lindo e glorioso que deixamos. Essas marcas são nossas histórias, nossa presença. E sob a luz do sol, por menor que ela seja lá estará às marcas de nossa caminhada.
Hoje a vitrola quebrou, o grave da música se calou. E o que me faz ser o que sou, e seguir como sigo, são as marcas de um velho que me ensinou o poder da simplicidade de uma pequena lesma.

Inúmeras histórias formarão a sua história, caminhos vão entrar e sair de seu próprio trajeto. Mas o que nunca vai mudar são as marcas que você está deixando no mundo e na vida das pessoas. Sejamos lesmas, e ao olhar nossos rastros que tenhamos orgulho dos caminhos que percorremos e das marcas que deixamos na vida das pessoas.

Por: Pedro Candido

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