#Entrevista: Operação Prato nos jornais

Durante a produção do meu livro pude conhecer pessoas que eu já acompanhava há tempos. Além dos ufólogos, eu queria entrevistar algum jornalista que esteve diante de um caso ufológico de fato. E não é que eu consegui.

Carlos Mendes esteve de frente com as testemunhas do caso Operação Prato, ocorrido no Pará em 1977. Conheci Mendes em Campinas, em um dos Congressos da Revista UFO. Infelizmente por conta do tempo, não pude entrevistá-lo pessoalmente, mas a palestra ministrada por ele, contando cada detalhe de suas pesquisas e investigação, rendeu quase um capítulo inteiro do meu livro.  Obrigada Carlos, por dividir tanto conhecimento comigo. Segue a entrevista na íntegra!

Qual foi o seu primeiro contato com os acontecimentos da Operação Prato?
CM- Comecei a investigar o ataque dessa luzes misteriosas nos primeiros dias de maio de 1977, quatro meses antes que os militares da Operação Prato, ligados à Aeronáutica, fossem para a região. O que levou esses militares e agir foram as inúmeras notícias e reportagens publicadas pela imprensa do Pará sobre o aparecimento dessas luzes. Devo dizer que no auge das aparições e nos locais onde me encontrava não vi nada.Fui para ver, tirar a prova dos nove, mas não vi. Isto não quer dizer que o fenômeno não existia por eu não ter visto ou mantido contato com as luzes. Jornalista trabalha com fatos e os fatos aconteciam, independentemente da minha vontade.

Você disse em uma matéria na Revista UFO que não teve nenhum contato com as luzes.como você encarava o testemunho das pessoas que viam? Acreditou logo no início ou relutou?
CM – No auge das aparições, meu espírito de São Tomé me fazia desconfiar dos depoimentos das pessoas atendidas nas unidades saúde, onde os ataques eram a mim relatados, ou mesmo nas residências das supostas vítimas. Mas, aos poucos, percebi que havia um nexo causal naqueles relatos. Com algumas pequenas variações – num caso, aterrador, em uma fazenda do Rio Maguari, na Olaria Keuffer, um ser humanoide foi visto e teria perseguido um barqueiro. Os depoimentos tinham consistência e não pareciam coisa inventada. Ou movida por “histeria coletiva”, como resumiu em seu relatório o psiquiatra militar Pedro Ernesto Póvoa, outros psiquiatras de Belém e parapsicólogos, além de padres e evangélicos. Para os religiosos, era manifestação do diabo. Para outros crentes, não religiosos, sinais do fim do mundo.

Qual era a ação dos militares para com os jornalistas que estavam cobrindo a Operação na época? Tinha uma repressão maior por acontecer algo desconhecido até para eles? Você sofreu ameaças?
CM- Sempre houve grande interesse dos militares da Aeronáutica, e do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de inteligência do regime dos generais, na tentativa de controlar a imprensa, então sob censura, depois que os fatos ganharam as ruas e as manchetes dos jornais. Os militares com quem conversava em Colares diziam que a imprensa agia com sensacionalismo e que as notícias publicadas causavam medo na população, abalando a segurança das pessoas. Fui ameaçado várias vezes pelo capitão Holanda, numa delas ele me encontrou na cidade de Colares e disse que eu deveria ir embora do local, porque alí estavam sendo investigadas “coisas sérias”. E sempre fazia questão de declarar que a imprensa deveria ficar longe de Colares. Claro que isto aguçou minha curiosidade eu fiquei, fiz meu trabalho e perturbei muito os militares. Jornalismo é isto: contrariar interesses de poderosos e informar o público.

Como eram seus métodos de checagem de informação na época e montagem de matérias? As testemunhas colaboravam ou tinha um certo receio em falar sobre o ocorrido?
CM – Era um método simples: ouvir as pessoas, gravar, anotar depoimentos, fazer várias vezes a mesma pergunta para ver se as pessoas se contradiziam, uma técnica jornalística que se aproxima muito do sentido de uma investigação policial. Nunca tive problemas com as testemunhas dos fenômenos. Elas sempre foram abertas e solícitas. Uma coisa que nunca esqueci: o pânico estampado na face das pessoas que diziam ter sido atacadas por luzes que desciam dos céus e extraiam sangue delas, deixando-as depois com sintomas como fraqueza, dores de cabeça e tontura. Vi e testemunhei isso, procurando manter o distanciamento crítico do repórter escalado para a cobertura pelo jornal “O Estado do Pará”.

Você deixou de colocar algum testemunho em suas matérias por falta de credibilidade da fonte?
CM – Em alguns casos, sim, mas foram bem poucos. Senti não a falta de credibilidade, mas a inconsistência e certa confusão no relato. Descartei por não perceber firmeza nas respostas. Não sei se era nervosismo ou medo.Pessoas simples, do interior, também sentem que podem se expôr ao ridículo, chamadas de loucas, como ocorre em manifestações de coisas para as quais ainda não temos explicações.

Você teve alguma matéria censurada sobre a Operação? Tanto pelos editores dos jornais em que trabalhou ou militares?
CM – Não, inclusive as matérias inéditas que nunca foram publicadas, porque seriam reunidas num caderno especial depois das aparições e fotografia pelo meu jornal de uma nave-mãe na Baía do Sol. Essas matérias estão no meu livro que deve ser publicado – assim espero – até o final deste ano de 2017.

Como jornalista, o que você acha que aconteceu em Colares e região? Na sua opinião, realmente eram inteligências extraterrenas que provocaram os ferimentos nas pessoas?
CM – Não sei definir. Acho que os militares da operação também não saberiam dizer, até porque eles foram testemunhas dos contatos, como revelou naquela histórica entrevista ao Ademar Gevaerd, da revista UFO, o capitão Uirangê Holanda. Para mim, o estado emocional e físico de algumas das cerca de 80 pessoas que entrevistei em diversos municípios da região nordeste do Pará chocou-se contra meu ceticismo. Eu pensava: “será que estão mentindo, inventando essas coisas?”. O detalhe é que pessoas de diferentes municípios, distantes mais de 200 quilômetros umas das outras, de comunidades ribeirinhas cercadas por rios e florestas, que sequer se conheciam pessoalmente, contavam exatamente as mesmas estórias sobre as aparições e ataques das tais luzes. É um mistério para o qual até hoje busco respostas.

Qual foi o fato que mais te deixou curioso sobre o caso e ainda te deixa até hoje?
CM – Vários fatos, além da descrição detalhada das formas dos objetos e cores das luzes que surgiam dos céus, focavam nas pessoas e desferiam raios sobre elas. Claro que nem todos os relatos abordam essa forma de ataque. Vários apenas se referem a luzes paradas, acima das casas, mas bem perto, e logo em seguida a disparada rumo ao espaço, sumindo na escuridão. Fiquei surpreso ao ter visto os militares levarem equipamentos de gravação, câmeras e filmes super-8, o sistema usado na década de 70, além de máquinas fotográficas, binóculos, teodolito, até helicóptero. Montaram um sistema forte de investigação. Armaram barracas de lona numa praia de Colares, organizavam as pessoas que diziam ter visto as luzes ou por elas ter sido atacadas, para que prestassem depoimentos. Apenas uma vez, porém, levaram um médico psiquiatra, um oficial chamado Pedro Ernesto Póvoa. Ele ficou um dia numa localidade conhecida por Santo Antônio de Ubintuba, onde testemunhei fatos extraordinários, inexplicáveis, relatos consistentes de aparições e ataques das luzes insólitas. A FAB se envolveu no caso por ordens superiores, do então Ministério da Aeronáutica, em Brasília. A ordem era, inicialmente, investigar ações de comunistas, temendo que a Guerrilha do Araguaia, aniquilada pelo regime militar nas matas do sul do Pará em 1975, dois anos depois tivesse retornado, desta vez no nordeste paraense, em regiões mais próximas da capital, Belém, para “fazer a cabeça” das pessoas do interior. Uma grande bobagem dos militares, que depois abandonaram a esdrúxula e hilária tese, até porque os próprios militares da Operação Prato escreveram em relatórios terem visto as luzes em evoluções nos céus que desafiavam as leis da física. Por terem dito e escrito que também viram o que as pessoas comuns tinham visto, esse foi o motivo em que a Operação Prato foi encerrada abruptamente pelo alto comando da Aeronáutica. O então comandante do 1º Comar, em Belém, o brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira – e digo isso no livro que brevemente lançarei com fatos inéditos sobre as investigações que fiz entre 1977 e 1978 – chegou a afirmar para mim, no gabinete dele, que o pessoal da Operação Prato tinha “endoidecido”, principalmente o capitão Uirangê Holanda, que dizia ter visto uma imensa nave extraterrestre pairando sobre o barco dos militares, certa noite, no rio Guajará-Mirim, em Colares. Sobre o Holanda, com quem tive algumas discussões, até mesmo refutando a ordem dele para que saísse de Colares durante a investigação militar, não acredito que ele tenha sido assassinado por saber muitos segredos da Operação Prato, como sugerem alguns teóricos de conspirações. Ele sofria de depressão, havia tentando por duas vezes o suicídio, até que na terceira conseguiu consumá-lo.

Vi algo muito estranho, se não me engano em setembro de 1979, quando as aparições já eram escassas. Eu estava acompanhado pelo parapsicólogo, espírita e general do Exército, Moacir Uchoa, na Baía do Sol, juntamente com uma equipe do Globo Repórter que depois me entrevistara, quando numa vigília observamos uma luz muito brilhante, em alta velocidade, mergulhar nas águas da Baía do Marajó e dela sair, passados alguns segundos, em uma velocidade ainda maior, sumindo no firmamento. Claro que aqui não era meteoro, balão meteorológico, ou o planeta Venus. Meteoro cai e não volta. A equipe toda ficou impressionada. E eu, um cético de carteirinha, mais ainda. O detalhe realísticamente sórdido: a câmera do cinegrafista do Globo Repórter tinha sido desligada minutos antes, porque ficamos até quase 5 da manhã naquela vigília sem nada ver. O general Uchoa chegou a dizer: “essas coisas acontecem. Não filmamos por um infeliz coincidência”. Mas aquilo não saiu da minha cabeça até hoje.

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