#AlôMarciano: OVNIs pousando no jornalismo

O jornalismo incorporado na ufologia ganha espaço, mais que isso, ganha credibilidade

Começo esta reportagem com uma frase que li no livro “UFOS: Militares, Pilotos e o Governo abrem o jogo” da autora e jornalista investigativa Leslie Kean, que escreve “Era como se todo mundo estivesse fingindo que eles não existiam”, se referindo aos objetos voadores não identificados. O jornalismo sempre abordou histórias sobre aparições estranhas de cunho ufológico, mas o que também sabemos é que esta abordagem, em sua maioria, era repleta do famoso sensacionalismo.
Vemos uma mídia que trata a ufologia com desprezo. Os veículos de comunicação podem até noticiar, mas sempre com um plano de fundo baseado na ridicularização do assunto. Leslie também falou sobre o preconceito da mídia em geral, dizendo que gostaria que não houvesse aquela piscadinha e aceno com a cabeça na televisão ou jornal, como se quisessem deixar o leitor entender que o material é bobo, mas que eles estão cobrindo de qualquer maneira. Além disso, segundo a jornalista, pessoas da “comunidade OVNI” e teoricos da conspiração fazer afirmações que não podem ser substanciais, então isso só dá mais material ao ridículo para a mídia, e não ajuda a ganhar uma cobertura séria sobre o tema. “O maior problema nos EUA é a falta de cobertura de todos os meios de comunicação maiores, mais ”mainstream”. Eles simplesmente não abordam esse tópico, raramente produzem algo. Mas também, há uma atitude cultural de longa data que os OVNIs são uma piada que infundiu o pensamento das pessoas, e isso existe há décadas e é difícil de superar. Isso criou preconceitos, e o fato de que o governo não leva isso a sério e não investiga casos, pelo menos nos EUA.”

Porém, Roger Marsh afirma que este preconceito está mudando de 10 anos para cá: “Há um mesmo preconceito aqui nos EUA, mas muitas informações sobre OVNIs estão disponíveis agora nos principais meios de comunicação, mais do que nunca. O fator “ridículo” diminuiu nos últimos 10 anos e, atualmente, uma porcentagem maior da população se sente melhor em relação a relatos de casos de OVNIs e sua discussão.”

Então por que não produzir um conteúdo que seja uma divulgação dos fatos produzido pelos ufólogos? Afinal, como muitos ufólogos relataram em suas entrevistas a mim, as técnicas de investigação tanto jornalísticas como ufológicas quase se confundem, mantendo o mesmo roteiro de trabalho.
O primeiro passo dos ufólogos é investigar um caso. O investigador e ufólogo Marco Aurélio Leal contou sobre suas pesquisas e como são os métodos de investigação que os ufólogos, e ele mesmo, usa em seu trabalho de campo. Geralmente eles vão até o local do suposto pouso de um OVNI ou agroglifo – desenhos nas plantações – e fazem a análise do solo, tiram fotos, medem o tamanho do terreno e da área atingida, e anotam todos os detalhes, inclusive fazem uma entrevista com as testemunhas do fato, como em um processo jornalístico, onde o ponto essencial é a checagem das informações obtidas. No caso de fotos ou vídeos, o ufólogo diz que por incrível que pareça, de 100% das fotos enviadas, apenas 5% que realmente são interessantes para investigação. Os outros 95% é engano ou fraude. Infelizmente, com a chegada da tecnologia, o que está atrapalhando as pesquisas desses profissionais são os Drones, no qual pessoal tiram fotos ou vídeos e acabam se enganando achando que é algo de outro planeta. Então, a cada caso que aparece, o cuidado ao dizer sobre do que aquilo se trata é mais complexo.

Três critérios são essenciais para uma boa exposição dos fatos, seja no âmbito do jornalismo ou da ufologia; são elas a investigação, a apuração de informações e a credibilidade. As técnicas jornalísticas de investigação de uma matéria consistem em checar os fatos do caso, entrevistar fontes, confirmar várias vezes dados de informação que culmina em uma matéria, ou se for o caso, um livro mais aprofundado. Na ufologia o mesmo acontece, você precisa confirmar as informações várias vezes para construir uma pesquisa séria e com propriedades.

Roger Marsh, editor que está à frente do jornal do centro de investigações ufológicas americano MUFON, em entrevista, respondeu alguns tópicos sobre seu trabalho comandando a publicação. Marsh afirmou que o mesmo processo de investigação no jornalismo é usado para uma investigação UFO. O editor diz que eles prezam pelo testemunho direto de quem viu objetos voadores, por exemplo, e daqueles que estavam investigando diretamente o caso também.

Já para o editor da Revista UFO, Ademar José Gevaerd, que trabalha há mais de 35 anos com jornalismo e investigações ufológicas, as funções das duas profissões são bastante semelhantes. Ele diz que quando publicaram um caso pesquisado por um cidadão que é advogado e pesquisador, sendo um material muito interessante sobre OVNIs no interior da Bahia, ele realizou entrevistas ótimas com as testemunhas e esse material é reproduzido fielmente ao relato das testemunhas. Não há uma edição profunda das entrevistas, elas são publicadas como foram feitas, isso, na opinião do editor, enriquecem a publicação.

A apuração, que como a investigação, também é um dos pontos mais decisivos para uma boa matéria, é feita a partir de conversas com testemunhas dos fenômenos, que geralmente são pessoas simples, que podem ser chave para informações muito importantes de um caso.

A autora Leslie Kean me contou em entrevista, sobre suas fontes de informação, que não necessariamente são só pessoas que trabalharam para o governo, como pilotos ou militares. Normalmente, diz a jornalista, são indivíduos que se aposentaram de um trabalho militar e que se sentem livres para falar sobre o que viram sem prejudicar suas carreiras. Outra fonte de informação da investigadora são os documentos governamentais, pois possuem uma variedade de agências, incluindo as forças armadas. Pilotos comerciais também integram o grupo de fontes mais confiáveis.

Já o site OVNI HOJE, que conheci através do ufólogo Thiago Ticchetti, trabalha com divulgação de informações internacionais para os brasileiros. Luiz Neme, criador e gerenciador o site traduz todas as matérias, para que essas informações cheguem até o Brasil de forma mais rápida. Ele busca informações nos sites da NASA, AstroWatch.com, GalaxyDaily.com, Disclose.tv, MysteriousUniverse.org. Infelizmente, Neme não possui ferramentas para checar fontes de informação, porém deixa sua opinião sobre o caso em todas as matérias, pois debruçado em sua experiência, consegue distinguir quais conteúdos são duvidosos.

Outro site que conheci foi o Portal Fenomenum, gerenciado por Jackson Camargo desde 1999. Ele, assim como Luiz Neme, trabalha sem uma equipe, exercendo todas as funções de editor do site. Camargo me contou que não publica casos ufológicos recentes pois ainda estão em investigação, sendo assim, o conteúdo do site é produzido a partir de acontecimentos antigos, que já possui informações suficientes para o leitor.

O criador do site diz que sempre há essa preocupação com a credibilidade das matérias que divulga. Ao abordar um caso, ele procura fontes em livros, boletins especializados, jornais, revistas impressas, tanto da época dos fatos, quanto posteriores, gerados por quem pesquisou o ocorrido. Camargo organiza essas informações, comparo cada uma delas, se houver alguma distinção de informações, ele a elimina, buscando a informação mais precisa, buscando entrevistas, imagens e documentos que validem esta informação. De posse disso tudo, expõe todos os fatos, apresentando todas estas fontes ao leitor, de modo que outros pesquisadores possam reiniciar uma investigação, caso necessário. Para as fontes de informação do site, Camargo afirma que dá preferência a livros, boletins especializados e documentários, depois jornais e revistas. E por último, em caso de necessidade, em sites na que preservem a idoneidade de informação.

Em entrevista, Gevaerd, o pai da Revista UFO, diz que a conquista de ser uma das mais antigas sobre ufologia do Brasil se dá devido a sua persistência, a constância e a pureza do propósito. Além de me contar todos os processos evolutivos pelos quais a revista passou desde 1985, o criador da UFO contou sobre os métodos de checar informações e credibilidade.

Os textos chegam de várias procedências. Há aqueles que Gevaerd pede a autor para fazê-lo, que contenha um tema específicos ou mesmo entrevistar outras pessoas, que são os praticamente 20% do conteúdo da publicação. Os outros 80% são pesquisas e investigações que colaboradores enviam espontaneamente. A revista toda é editada em um padrão, com regras de formatação de linguagem, parágrafos semelhantes, correção ortográfica, quantidade de tamanho e palavras, título, organização de pesquisa, entre outros fatores. O intuito desta formatação é fazer com que o leitor se sinta em um mesmo ambiente de leitura, tanto online quanto impresso.

Já sobre a credibilidade das matérias, Gevaerd afirmou que primeiramente o ufólogo tem que ser alguém que demonstre que sabe sobre o que está falando, e não necessariamente precisa ser uma pessoa experiente. Alguns autores da “UFO” são pessoas simples. O editor conta que até um frentista de posto escreve para a revista, suas ideias são ótimas e ele escreve bem, não precisando de muitas edições em seu texto. Além de escrever para a revista, o frentista pesquisa as ocorrências de Minas Gerais, onde mora, faz seus relatórios comparando com algum outro caso parecido, envia para a revista e a publicação acontece.

Gevaerd espera que os autores tenham conhecimento sobre o assunto que estão falando e escrevendo, pois se confrontados por alguém a respeito da consistência do conteúdo, podem defender o que produziram, por exemplo, sobre a credibilidade da sua pesquisa. Como o editor faz um jornalismo diferente, todos os pontos devem ser apurados, pois é um jornalismo mais particular pelo fato da área não ter muito conhecimento integrado a sociedade. Procura-se, na Revista UFO, fazer um jornalismo mais tradicional, mas levando em consideração a “estranheza” do assunto.

 

 

 

#Entrevista: Jornalista Investigativa dos OVNIs

Leslie Kean respondeu uma solicitação de entrevista minha. Na hora eu simplesmente perdi o ar ao ler seu e-mail. Eu não podia acreditar que teria uma jornalista investigativa americana como uma das fontes para o meu livro. Ela me respondeu de forma carinhosa e prestativa, o que deixou ainda mais em êxtase. Kean publicou sua primeira matéria para o Boston Globe sobre o fenômeno OVNI. Enfrentou o deboche dos colegas de trabalho que não acreditavam em nada daquilo. Mas como a descrença sendo que ela havia entrevistado figurões da Força Aérea Americana? Um detalhe importantíssimo, Leslie Kean tem um livro como Bestseller no New York Times

O trecho do meu livro que lhes apresento agora foi escrito em meados de agosto de 2017. Kean, além de ser uma ótima profissional, autora de livros, jornalista com uma vasta carreira, ainda traz doçura e um toque de firmeza em suas palavras. Minha entrevista com ela foi claramente voltada para o jornalismo, pois o meu trabalho também abordou a área. Mas o fato é que sou imensamente grata a Leslie Kean, e um dia acredito, meu livro chegará em suas mãos.

“Leslie Kean, jornalista investigativa americana, concedeu-me uma entrevista por e-mail sobre seu trabalho em relação à ufologia. Suas reportagens foram publicados no jornal The Boston Globe e para a rádio californiana KPFA. Dois livros também foram produzidos por ela: “UFOs: generals, pilots, and government officials go on the record” (2010) e o “Surviving Death: a journalist investigates evidence for an afterlife, que foi lançado neste ano. Hoje Leslie se dedica ao tema, tendo publicado várias matérias em jornais sobre o fenômeno OVNI.

Em entrevista a esta autora, Leslie disse que não há diferença entre as técnicas jornalísticas de investigação com a ufológica. Ela aplica os mesmos padrões para cobrir pautas sobre o fenômeno UFO que faria para qualquer outro assunto. Ela desenvolveu várias pautas antes de trabalhar com esse tema, então sua abordagem como jornalista é do mesmo padrão, não importa o que ela esteja cobrindo.  A jornalista americana destaca que a única diferença sobre pautas produzidas sobre OVNIs é a de que estas são consideradas um tabu. Ela adapta o fato, padronizando-o para uma abordagem jornalística ainda mais técnica do que faria para uma pauta dita “normal”. A única diferença que a autora vê é sobre a estranheza do tema, mas não o método de investigação.”.